Bem, antes de tudo eu gostaria de começar dizendo que sou cristão, apesar de estar ou não vinculado a alguma denominação. Tão clichê nestes tempos em que nos achamos puros indivíduos e acabamos nos percebendo numa nova igreja, num novo movimento, assentados na mesa de um grupo parecido conosco, por mais distantes que dele sejamos, sempre confusos sobre o que em nós é ou não é individual.
Fui batizado. Sou amado por Jesus. Creio na inteira Bíblia. Mas estou cansado de gente que acha que achou a Bíblia primeiro. Todos querem ser os gostosões da interpretação bíblica, o que é normal num país que se entende como cristão (e aqui não quero dizer que creio em coletividades pensantes), mas não sabem que o que fazem da Bíblia já foi feito muitíssimo melhor por outras pessoas. Não há nada novo debaixo do sol, muito menos a nossa visão das Escrituras, muito menos a forma como a interpretamos. E dizer que nenhuma passagem bíblica é de particular interpretação em nada interfere no fato de que tanto interpretações tradicionais quanto pós-modernas, tanto individuais quanto coletivas, nenhuma parece satisfazer a totalidade da cristandade. Daí ter abraçado C. S. Lewis aquilo que chamou "mere christianity", que fugiria (dizemos) das interpretações denominacionais sobre pontos específicos e periféricos da doutrina cristã.
Fui batizado, mas desde o princípio questionei (pra soar chique) os usos e desusos doutrinários daquela e de outras igrejas. Eu não fazia isto apenas sendo cético em relação a tudo o que a igreja ensinava, como em geral as pessoas que se acham muito inteligentes se comportam, mas era cético o suficiente para também duvidar da minha própria dúvida em relação àqueles ensinamentos e usos, com a ajuda de amigos do próprio meio. Tudo imperfeitamente e cambaleantemente, como é permitido a um homem agir, neste mundo essencialmente decaído e errante. E isso diz mais: não compactuo, portanto, com a ideia de que a igreja seja um ambiente em que nada pode ser questionado. Onde há indivíduos, há questões. E parte da tragédia se agiganta se Pessoa tiver razão e todos os problemas forem insolúveis. Sério, às vezes eu tenho esta impressão no que se refere ao cristianismo. Antes eu ficava triste, porque eu era muito jovem e queria soluções. Hoje fico feliz, porque a solução é impossível num mundo decaído e está reservada para o Grande Dia, segundo imagino.
Enquanto eu mudava as vestes de "rock" para o terno e a gravata, eu trazia quase no mesmo tempo a noção de que roupas para Deus não eram nada importantes, e que isso deve ficar a critério de cada um, como o uso de açúcar, de marcas ou de chapéus. O problema é que se tenta institucionalizar as mudanças que ocorrem em algumas pessoas. Claro que sabemos que um cristão pode querer por causa de Cristo deixar a bebida, roupas, estilos, etc. O erro é imaginar que todos devem deixar a bebida tão logo se tornem cristãos. Criamos uma fábrica de cristãos, todos iguaizinhos, como se Deus o quisesse. Diremos: o apóstolo pediu que fôssemos unânimes. Mas espere um pouco: Pedro ainda preferia falar ao invés de escrever. Paulo talvez preferisse escrever. Por que eles não foram unânimes nisso? Todos temos preferências. E isto nunca vai mudar.
Então eu nunca fui iludido por esta idéia de que o convertido deve ser necessariamente alguém que muda suas vestes, embora eu reconheça que algo muda na vida exterior de quase todos os convertidos com quem tive contato, mas não creio jamais que isso deva ser do "meu jeito" ou do jeito de quem quer que seja. Cada cristão têm seu ritmo. O próprio livro com explicações e ensinamentos sobre a obra de Deus na Congregação Cristã no Brasil, explica que sobre vestes, por exemplo, não há nenhuma determinação a ser feita. É o senso comum da igreja que está cheio de formalismos. A obra do convertido deve ser de tal forma e pronto. Claro que por muito tempo eu não liguei de agir em conformidade com aquele modelo exigido pelo senso comum da comunidade (não da Igreja, como já demonstrei), mas com o tempo percebemos que aquelas pequenas exigências começam a figurar imaginativamente como mandamentos de Cristo, não como aquilo que eram in limine.
No começo fui mais firme nestes ensinamentos, ao ponto de largar amigos. Eu achava que tinha que abandonar tudo e todos por amor de Cristo, e é óbvio que isso deve ser feito. Mas não é verdade que devemos abandonar as pessoas de qualquer forma por qualquer doutrina ou preferência de um grupo cristão achando que o mero abandono é uma obra cristã. Devemos abandonar as pessoas que nos odeiam porque somos cristãos, não aquelas que nada fariam em relação a nós por causa de nossa religião. Eu tinha amigos que tolerariam a minha religião totalmente. Mas eu sentia a necessidade louca de forçá-los a ver as coisas que eu via. Claro, Cristo é bom demais para que deixemos de apresentá-lo, mas quem disse que Cristo é usar terno? As pequenas exigências podem minar o amor de Deus que alcançaria centenas de pessoas ao nosso redor. Estas exigências escandalizam as pessoas no verdadeiro sentido da palavra: afasta-as de Jesus.
Esta visão de que "eu estou certo e você, errado" é boa quando você pode dar chance a uma discussão teológica. Mas quando a nossa teologia procura descer goela abaixo e todos os que não aceitam aquela forma de ler os versos bíblicos são vistos como possuídos pelo demônio, já não é saudável. Fica pesado. Fica triste. Não creio que as verdades bíblicas sejam relativas, por outro lado. Creio que existe a Verdade, que existe a interpretação correta, mas tenho para mim que devemos ir com calma e com humildade quando o assunto é teologia, dando sempre espaço para o contraditório e lidando calmamente com os paradoxos existentes neste campo do conhecimento. Mesmo as verdades desta vida, as verdades mais materiais, possuem alguns pontos que nos cegam e nos fazem incorrer nalguns erros. Quem dirá as coisas de Deus, a quem conhecemos tão pouco, a quem conhecemos pela fé, não por vista.
Hoje creio que existam pessoas 10% cristãs, outras 30%, outras 50%, e por aí vai, mas me parece que quando o assunto é Jesus Cristo, não importa se chegamos ou não, mas se estamos no caminho. Ninguém me parece perfeito como Jesus, então não acho que algum de nós tenha o direito de apontar quem quer que seja como inferior a nós em termos de fé. E isto é uma coisa que as comunidades cristãs encorajam demais, o que afasta inúmeras pessoas de perseverarem no Caminho. Eu mesmo estou preferindo uma perspectiva do cristianismo mais individual. Estou caminhando aos poucos, lendo a Bíblia aos poucos, lendo teologia aos poucos, sem atropelar ninguém e exigir nada de ninguém, como outrora fiz até demais por influencia do meio religioso.
Existe o pecado? Existe. Existe a Graça? Existe. Mas agora eu quero ensinar a quem quiser saber, assim como eu pergunto a alguém quando quero dele aprender algo. Assim como leio livros quando quero destes autores obter uma resposta, uma perspectiva que enriqueça a minha. Se um cristão busca a sabedoria de Jesus, é óbvio que Cristo não o abandonará nesta busca, mas Cristo tem a resposta real. Eu, por minha vez, só sei ser chato. Devemos ensinar uns aos outros, desde que nos peçam tal ensino e desde que tenhamos a humildade e a caridade necessária para ensinar sem a vontade de nos provar superiores, sem o desejo de nos provar a última bolacha do pacote no quesito hermenêutico das sagradas letras.
Me desiludi não da igreja, mas de mim. A igreja confiava demais em mim. Confia demais no homem. Eu não posso me dar esse luxo depois de me conhecer um pouco mais do que ela me conhecia. Cristo é muito atraente. E eu, meu Deus!, sou poeta menor, como diria Manuel Bandeira. Perdoai!
Me desiludi não da igreja, mas de mim. A igreja confiava demais em mim. Confia demais no homem. Eu não posso me dar esse luxo depois de me conhecer um pouco mais do que ela me conhecia. Cristo é muito atraente. E eu, meu Deus!, sou poeta menor, como diria Manuel Bandeira. Perdoai!