sábado, 19 de dezembro de 2020

Questões católicas

Talvez seja tido como um escritor infantil aquele que escreve apenas pelo impulso de uma provocação. Mas ninguém pode negar que a provocação dá possibilidades muito importantes ao assunto que quer ser desenvolvido. E há poucos dias minha irmã deu-me a ideia de explicar a razão de eu não ser católico.

Minha fé ganhou diferentes cores e contornos ao longo de minha vida cristã. Quando há alguns anos debati com o então professor da UFMG Antonio Emílio Angueth de Araújo, católico ferrenho, ele me disse que eu sendo admirador de Chesterton e pupilo de Olavo de Carvalho acabaria retornando à Igreja Católica, coisa que realmente acontece de modo assaz corriqueiro. Também sou admirador da obra de católicos influentes como Agostinho de Hipona, Tomás de Aquino, G. K. Chesterton, Georges Bernanos, J. R. R. Tolkien, etc. É muito fácil ser influenciado por gigantes como estes a voltar para a Igreja Católica.

É claro que isto não é uma coisa que se responde daquela maneira adolescente à qual as pessoas que falam sobre o assunto estão acostumadas, com milhares de citações de autores da tradição teológica, versículos bíblicos, etc. Eu não acho que exista um cristão que seja 100% protestante ou 100% católico. Não creio nem mesmo que todos os cristãos sejam 100% cristãos, como eu disse no texto anterior. As igrejas fixam dogmas, doutrinas, etc., mas os seres humanos não são robôs programados por anjos tecnocratas que aceitam toda a doutrina completa e perfeitamente. Existem dúvidas, problemas, tensões e paradoxos que cada cristão traz em si que lhes são particulares e que acabariam angariando elogios ou repreensões tanto de protestantes quanto de católicos.

Diante disso, ao invés de dar razões pelas quais não sou católico, vou apenas compartilhar algumas das dúvidas e dificuldades que possuo quanto à Igreja Católica. É importante saber que eu sei pouco sobre ela, embora seja de família católica e tenha frequentado algumas páginas de católicos importantes. Por isso, confesso a minha pequenez diante desta que é uma das instituições mais importantes de todos os tempos, e também uma das que mais admiro e venero, ainda que não faça parte dela. Além da minha pequenez, confesso mesmo meu amor à Igreja Católica, fundadora de maravilhosas galerias de arte, hospitais, universidades, leprosários, asilos para idosos, hospedarias baratas, mantenedora, assim, extremamente solícita, do bem estar social da humanidade por onde passou ao longo dos tempos. Por isso, além de não dar tanta importância à minha própria opinião sobre isso, confesso que pratico uma espécie de "contemplação amorosa" - na acepção do professor Olavo de Carvalho - diante desta grande instituição, isto é, eu a vou observando e estudando aos poucos, sem jamais desejar que seja outra coisa e a aceito como ela é no momento em que leio sobre ela e sobre a história do cristianismo de maneira geral, folheando desde Eusébio de Cesaréia até Geoffrey Blainey.

Existe a possibilidade, por isso mesmo, de que, por saber tão pouco, me seja impossível compreender o objeto das dúvidas que ora exponho. Mas vamos a elas:

1. Em primeiro lugar, eu tenho a sensação de que os países protestantes possuem uma ética um pouco mais forte. Quando era meu amigo, o poeta católico Bernardo Souto confirmava esta minha visão. E o poeta agnóstico Jorge Luis Borges, em conversa com Osvaldo Ferrari, observou este fato. Claro que isso gera defeitos, também, como uma intolerância quase persecutória com a falha humana e um moralismo arrogante. E dou aos países católicos o mérito de serem mais misericordiosos, por assim dizer. Sinto que este problema é uma espécie de gangorra moral, um paradoxo inevitável.

É bom que o catolicismo tenha esta paciência com os fiéis e os permita apenas se confessar e pronto. Acho que quanto menos uma autoridade nos force a evitar o erro, mais nos tornamos livres e responsáveis por nós mesmos. Por outro lado, olhando para minha vida, observo que fui ficando mais cretino conforme a cobrança dos meus pais fosse diminuindo. Um igreja precisa cobrar dos fiéis a retidão bíblica, mesmo que seja difícil alcançá-la. Não nego que haja cobrança moral na igreja católica, mas acho que há mais na igreja protestante, e acho isso interessante e louvável.

2. Fico perplexo com o fascínio crescente que Maria, mãe de Jesus, exerce no meio católico. Eu sou, confesso, fascinado por Maria. No entanto, algumas ideias me fazem questionar bastante. A virgindade de Maria até a morte é uma delas, pois afasta gravemente a noção defendida pelo evangelista Marcos da existência de irmãos e irmãs de Jesus; a Assunção de Maria também me parece difícil de aceitar; a Imaculada Conceição é outra; e também a ideia de "mãe de Deus". Me espanta mais ainda, aliás, que Maria tenha se tornado "corredentora" dos cristãos católicos ao longo dos séculos. Ela participa da salvação deles. É uma ideia extremamente estranha para os discursos de Jesus e dos apóstolos.

Não consigo crer nestas coisas. Jesus Homem tem mãe; o Deus Pai, não. E alegar as palavras de Jesus dizendo que Ele e o Pai são um só não resolve a noção de que Jesus em carne é filho de Maria, mas não Jesus enquanto Verbo, que existe antes da fundação do mundo em que Maria nasceu, cresceu e morreu. Ademais, todos podemos chegar a Deus somente através de Jesus. Nenhuma pessoa precisa ser acrescentada na intermediação entre nós e Deus. Nem mesmo a mãe do Salvador. Jesus é muito bom no trabalho que realiza.

3. Não tenho a facilidade que os católicos têm de considerarem uma criança apta a ser batizada. Vejo no batismo um ato racional, consciente, de arrependimento por pecados e de crença consciente em Jesus como salvador daquele que crê. O batismo é melhor aproveitado depois do arrependimento dos pecados e da noção de uma nova vida entregue à fé.

4. Gustavo Corção que me perdoe, mas acho que o Concílio Vaticano II acertou ao revogar a doutrina que me parece ter surgido no século VIII determinando o banimento da carne do prato dos fiéis na Quaresma. Não acho que o que os fiéis comem deva ser assunto de uma autoridade religiosa, a não ser, por exemplo, o comer sangue, que é proibido por Tiago Apóstolo.

5. Há outro abuso de autoridade que não engulo: o proibir aos padres de se casarem, felizmente outra doutrina que foi questionada no CV II. Qual é mesmo o problema de disponibilizar o ato do casamento aos padres? Claro que isso não é uma doutrina que me afasta da igreja católica, mas apenas algo que demonstra que alguns caminhos tomados por ela são estranhíssimos. Reconheço que alguns desses caminhos sejam necessários, como as Cruzadas e as santas Inquisições, até hoje criticadas, mas que eu, pessoalmente, admito terem sido positivas.

6. Assim como o imperador Leão III, acredito que a reverência a imagens afasta muçulmanos e judeus, bem como cristãos protestantes, que querem se converter ao cristianismo católico. Aquele imperador errou, no entanto, ao determinar sua destruição. Creio que é importante possuir símbolos, estátuas, etc. As artes plásticas explodiram em criatividade graças aos movimentos imagéticos da igreja católica. Fico muito animado em saber que as igrejas eram ao mesmo tempo templos e "galerias de arte" antigas. O problema está apenas na reverência religiosa a estas obras de arte, ato que, me parece, escandaliza pessoas que querem se aproximar de Cristo.

7. Tenho muitas dúvidas quanto à necessidade de crer num purgatório. Também é uma ideia estranha a qualquer católico que viveu antes do século XII.

8. Existem alguns lugares onde a igreja ainda cobra para realizar batismos, casamentos, entre outras coisas que deveriam ser feitas gratuitamente pelos líderes cristãos. Claro que isso não é uma coisa que me separaria de uma religião, mas não me causa um bom cheiro. Não me atrai. O mesmo ocorre, para ser sincero, com algumas igrejas protestantes que cobram dízimos dos fiéis. Creio que os fiéis deveriam dar apenas o que quisessem, por livre e espontânea vontade, mas sem afetar sua participação nos sacramentos.

9. Objetos consagrados não me parecem milagrosos, como água benta e outras coisas. Eu acreditava em objetos poderosos quando eu estudava um pouco da Wicca, uma bruxaria modernizada. Chegando no cristianismo, não tenho necessidade de crer em águas bentas, estátuas que ouvem orações, etc. Chego a dizer que não acho esta crença sequer apropriada a um cristão.

10. Concordo que apóstolos, bispos, diáconos e cooperadores, conforme o Novo Testamento, precisam ensinar aos novos convertidos e aos jovens, mas não acho que devamos precisar de um indivíduo como um papa. Não creio nem mesmo na sucessão papal. As pessoas admitem que o papado foi instituído muito depois de Pedro, mas mesmo assim ainda o creem "primeiro papa." Não creio. Não preciso crer nisso. Na própria igreja existem os sedevacantistas que também não possuem tal necessidade. Se eu fosse católico, talvez fosse sedevacantista.

11. Erasmo acertadamente ensinou que, pelas Escrituras, "Cristo vive, respira e fala conosco", de modo que a frequência regular à igreja não é absolutamente essencial. E isto é algo que protestantes e católicos fazem: dão ao fiel a sensação de "precisarem" estar na igreja. Para mim, a igreja devia fazer o oposto, fazer de tudo para que o fiel não precise dela. Frequentá-la, congregar-se com a igreja, mas sem dela depender. A igreja devia educar os fieis a serem dependentes de Deus, de Cristo.  Assim como prefiro um Estado que auxilia o cidadão para que precise do Estado cada vez menos, assim também acho que a Igreja devia ser alguém que auxilia seus fiéis para que precisem cada vez menos dela. Mas não sou tão radical quanto Frank A. Viola. Digo que o fiel não precisa da igreja mais à maneira de Philip Yancey ou Wayne Jacobsen.