quinta-feira, 25 de março de 2021

Viagem 2018

I

Embora a manhã fosse tranquila, despertamos ao lado de uma Brasília ensolarada (o sopro leve do vento que acaricia as extremidades desta cidade impede que o mesmo sol que sentimos no Piauí deixe quente em demasia o clima que nos visita. Lembra mesmo os melhores dias do meu Pernambuco).


Meu irmão Welber, que completaria um aninho em pleno território europeu se não despencássemos no meio do Atlântico, nos dava, graças a isto, o privilégio de não pegarmos fila.


O ronco daquele animal de ferro em que embarcamos, que chamamos avião, varreu dos rostinhos de Samantha e Wenzo, meus outros irmãos mais novos, o sorriso ansioso com que responderam ao meu. A minha madrasta os tranquilizava, talvez para tranquilizar-se a si mesma. Meu pai observava austero o embarque dos outros passageiros, talvez se perguntando o que tanta gente pretendia fazer em Guarulhos.


Fui lembrar-me novamente de Welber, bebê silencioso, quando já estávamos observando a cidade desde cima. O bicho de ferro não me era mecanismo nada estranho, mas costumo duvidar da afeição com que nos recebe pouco antes da aterrissagem.


As muitas malas e as crianças me preocuparam quando vi que nosso portão de embarque era um dos últimos. O almoço da irmã Marina já perdera o efeito e a longa jornada no aeroporto nos deu sede. Uma pena que jantar com a família num aeroporto hoje possa me custar um quarto do que eu ganhava por mês quando ainda estava empregado.


Londres não chegava ou nós não chegávamos a Londres. Os filmes e músicas no visor da poltrona à frente já não me entretinham tanto. Como fui me sentar sem tirar um livro da mochila?


Apreensivo com o que ouvi sobre os oficiais de imigração de Londres, preenchi com pressa os cartões que a comissária nos entregou. Usei a lanterna do celular de meu pai. Não quis despertar com a forte luz da poltrona a minha companheira de vôo, a italiana Anastácia, que se calara depois de nossa boa conversa sobre literatura e agora me preocupava pela posição desconfortável com que dormia e... babava em seu próprio colo. Senti inveja. Não porque ela lia Umberto Eco por menos de um euro, mas por conseguir dormir numa das poltronas do bicho de lata.


O oficial nos recebeu muito bem, e não embargou nossa passagem, graças a Deus. Talvez não tenha o estranho hobby de alguns confrades seus de deportar os de "sapatos amarelos", "de mochilas azuis" ou "de sotaque asiático".

É cerimônia detestável essas incontáveis checagens em passaportes, etc., principalmente para quem vem de um país onde somos levados a desgostar de qualquer exagero burocrático.

Londres estava gelada e, sem luvas, tive que sair com as mãos nos bolsos, mas sem nenhuma preocupação além da de me divertir com a fumaça que me saía da boca, bem mais densa do que a que me divertiu em Sorocaba, uma vez.

Meu pai, minha madrasta e as crianças já deviam estar em Swindon, mas eu e nosso anfitrião Guilherme tínhamos que ir buscar seu amigo italiano que chegaria não pelo Heathrow, como nós, mas pelo Gatwick.

Mesmo há quase 24 horas sem dormir, tive que ceder ao convite de Gabriel e Guilherme e fomos visitar uma família de amigos deste. Eu fui para isso, não para dormir.

No dia seguinte, a minha irmã mais velha e os demais chegaram. E assim iniciaríamos oficialmente a missão de visitar nossos irmãos naquele país. Como são muitos!

O Brasil não é mais um lar, não...

***

As ruas estreitas de Swindon davam ainda mais aconchego à alma de um viajante que sonhara em conhecer a Inglaterra. O interior, não Londres, é muito de um lar.

A organização do trânsito quase que se adaptava às irresponsáveis distrações de Guilherme, que atendia a ligações pelo celular raspando com os pneus a bordas arredondadas das calçadas da cidade.

Nada é feio. Nada é sem propósito. Tudo parece bastante organizado. As cortinas das casas, quase transparentes, mostram que as pessoas não têm medo de serem bisbilhotadas, talvez por não sentirem necessidade de bisbilhotar ninguém. Os ingleses não têm a desconfiança brasileira.

O telhado é tão vertical que eu me pergunto se é por causa da neve ou para ser apenas bonito, sendo a defesa contra a neve apenas um detalhe.

Biiiii! Finalmente uma leve buzina reclama das distrações guilhermianas, e eu olho para Gabriel, que continua a contemplar a beleza da cidade. Ou será que estaria apenas pensando se esqueceu de alguma coisa?

Apesar de não ser minha primeira ida à Europa, penso e me questiono, e sobretudo me espanto, a respeito da beleza nas coisas mínimas. Será que o Brasil odeia a beleza?

Observo os olhos acostumados de Guilherme fixarem, depois da buzina, o trânsito mais atentamente. Sinto que meu suéter e minha capa começam a aquecer um pouco mais. É o aquecedor do carro. Lembro de meu povo araripinense e temo sair do carro e entortar a boca naquele frio lá de fora.

Mas a beleza dos bloquinhos vermelhos na arquitetura das casas me arrebata. Espere aí! Aquilo era um corvo? É a primeira vez que vejo um. Me arrependo de não ter trazido o livro de Edgar Allan Poe. Não será barato, nas livrarias? Talvez sim, mas meus bolsos estão vazios.

Lembro do propósito da viagem: visitar e conhecer os irmãos da Christian Congregation in United Kingdom. É o que, aliás, escreveu Guilherme na sua carta convite e que eu diria a qualquer blitz que nos fizesse parar.

- Aqui tem blitz? - pergunto.

- Não. - Responde o Gui. Gabriel me olha interessado em saber de onde veio a pergunta. Parece lamentar que eu ainda viva num país onde é facílimo encontrar policiais desconfiados do povo, doidinhos por uns trocados, não bastassem os impostos que pagamos.

Mais à frente vejo a placa branca que anuncia nossa chegada à Ripley Road. "É a rua do Guilherme", digo a mim mesmo recordando novamente a carta convite.