Li e ouvi que Jesus Cristo era esquerdista, isto é, que tinha um plano de mudança social do nível de uma ideologia revolucionária como o marxismo, o socialismo ou o comunismo, etc. Sempre ouço uma canção de amigo que anuncia o fim de uma tempestade. Tempestades incomodam. Principalmente as que se fazem em copo d'água. Mas como diz o Rei Élfico, Thranduil, em O Hobbit, "às vezes uma tempestade é apenas uma tempestade."
Sou contra fazer tempestades em copos d'água, mas chamar o Senhor de revolucionário é um pouco demais. E isto significa que o espírito revolucionário quer tomar para si o maior de todos os homens. Isso não pode ser feito e, se depender de mim, não será, pois segundo Mário Ferreira dos Santos, no sentido político, ideologia é o termo utilizado para indicar as idéias gerais de um programa social que se fundam ou pretendem fundar-se sobre os dados reais dos fatos, especialmente os econômicos. A qualquer leitor atento das biografias de Jesus isto bastaria para desfazer a narrativa do Jesus esquerdista, sendo o Reino de Jesus o reino de uma "Jerusalém que nunca mais será destruída", como profetizava Jeremias. E, como sabemos, uma Cidade puramente celestial. "Meu Reino não é deste mundo", dizia Jesus. Não havia em Jesus nenhum interesse nas mudanças que uma ideologia em geral propõe, muito embora seus atos e palavras tenham, necessariamente, consequências sociais drásticas. Se assim não fosse, o cristianismo seria uma religião da evasão, apenas, não uma religião que se preocupa com o acontecer histórico.
Diz também Mário Ferreira dos Santos, no seu Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais, que para o marxismo o termo ideologia significa todo sistema filosófico, religioso, ético, etc., considerado como espiritual, mas que na realidade é mera função de um processo ou estado puramente material, sobretudo econômico. Ao contrário de filosofia política, que é a reflexão em cima das idéias políticas, a ideologia é um conjunto de idéias fundadas em pressupostos abstratos que só possuem significado quando desembocadas na realidade material.
Ademais, segundo Otto Maria Carpeaux, "as ideologias sempre foram instrumentos de luta pelo poder." É verdade que o poder envolve a capacidade de fazer os outros te obedecerem, o que Cristo tinha demais. Mas a diferença é que o poder mudano obriga. O poder de Cristo convida. As ideologias, por sua vez, não dão sugestões. Tudo nelas vai dar em algo que se torne obrigatório a todo um corpo social, o que para Jesus seria loucura.
Olavo de Carvalho, no seu O Futuro do Pensamento Brasileiro, diz que toda ideologia - partido ou movimento - é somente compreendida quando temos idéia do que nossas interpretações a respeito deles significam desde seu ponto de vista. Para ele, ao contrário da Filosofia, as ideologias transferem a responsabilidade de conhecer a verdade do indivíduo para a coletividade, divergindo apenas sobre qual seria a coletividade encarregada para tal. Diz, também, que uma grande diferença entre as filosofias políticas e as ideologias revolucionárias modernas reside no fato de que aquelas só admitiam revoluções para a restauração de direitos tradicionais usurpados, ao passo que as ideologias se assentam na absurda premissa de que, por serem baseadas na hipótese de novos direitos, devem conferir aos seus porta-vozes o direito de matar para realizá-los.
Aí encontramos uma porção de coisas as quais não cabem no discurso de Jesus: Ele não tentava transferir a busca pela Verdade para uma coletividade. Para Jesus, o indivíduo é quem devia crer nEle, que era e que é a Verdade. Jesus também não pode ser um filósofo político, porque ele não quis revolução alguma no âmbito social para restauração de direitos tradicionais usurpados. Livros como o do Peter Kreeft, que tratam da "filosofia de Jesus", estão apenas tratando de uma figura de linguagem. E depois Jesus jamais defenderia a morte de quem quer que seja para que novos direitos fossem realizados.
Ora, nunca vemos no comportamento de Jesus um idealismo que se assemelhe ao das ideologias modernas. Jesus parece bem mais alguém que tenta resgatar valores antigos ao fazer uma releitura da lei à luz daquilo que é anterior a ela: o amor a Deus e ao próximo. Não é um resgate de direitos. Se a misericórdia fosse praticada, o mundo mudaria, afinal os homens deixariam de ser tão mesquinhos, mas Jesus não queria que pessoas fossem mortas para um projeto social em torno disso. Ele queria morrer para isso. E o templo que Jesus derrubou e reconstruiu em três dias foi um templo espiritual que, uma vez reerguido no alicerce que é o próprio Jesus (e também o próprio templo, aliás), jamais voltará a ser destruído.
E não estou só quando penso em Jesus como uma espécie de reacionário. Diz Karl Thieme:
"Jesus não foi entregue aos romanos porque falava do Reino dos Céus, mas porque condenava a revolução nacional dos messianistas."
Jesus foi o primeiro que praticou aquela boa desobediência civil contra um sistema que lhe era ostensivamente falho, pecaminoso, inadequado ao tipo de Reino ao qual Ele pertence e do qual é Rei e Fundador.
As grandes e maiores ideologias modernas são totalmente contrárias à Igreja e ao Cristianismo, pois são de forte base ateísta, como por exemplo o marxismo, o comunismo e o socialismo, nos lembra também o grande teólogo Alister McGrath, na sua Teologia Sistemática, Histórica e Filosófica.
Assim, o "socialismo cristão", presente na obra de panfletários marxistas como Frei Betto no seu livro Cristianismo e Marxismo, é algo impossível na prática, pois não se pode reduzir a filosofia cristã, claramente reacionária, claramente revitalizadora de valores antigos, às ideologias modernas que lhe são caras, pois seria uma contextualização do Evangelho ao condicionamento e à interpretação social dada à realidade pelas ideologias, e como insiste McGrath no seu Paixão Pela Verdade, "o Evangelho é primário; a contextualização, secundária e provisória." E eu continuaria: no caso do comunismo, impossível.
Diz C. Baxter Kruger que "o Éden nunca foi meta, mas começo", e a vontade de Jesus de renovar o homem, o universo e tudo o mais está longe de ser um projeto ideológico para um futuro radiante e materialista. É, no máximo, um reacionarismo espiritual. Jesus não queria que os homens idolatrassem à pobreza na tentativa de erradicá-la como o faz a teologia da libertação falsamente. Ele queria matar a fome espiritual, primeiro, pois, como ele disse, os pobres sempre estariam conosco, mas Ele logo seria tomado de nós. Jamais diria que Cristo quis que evitássemos dar esmola, o que Mateus 6 desmentira rapidinho, mas quero dizer que a desesperada contextualização do Evangelho que tenta unir o Cristianismo a ideologias como o comunismo é a tentativa de tornar meta cristã um paraíso na terra, o que jamais seria prudente à luz das ações e palavras do Mestre dos mestres.
Para o historiador Paul Johnson,
"o objetivo de Jesus não era mudar o mundo. [...]Não tomou medidas para mudar o status quo político."
Era um revolução no interior do homem, não no meio social, o que Jesus queria. De fato, seu Reino estava sendo construído para além do mundo. E como bem dizia H. Richard Niebuhr,
"as grandes revoluções cristãs não acontecem por meio da descoberta de algo desconhecido até então. Elas acontecem quando alguém aceita radicalmente algo que sempre esteve aí."
A revolução de Jesus é reconhecer a realidade, não transformar a realidade. Claro que a religião envolve o agir político. O apóstolo dizia que ainda estamos no mundo. Não podemos viver como se não estivéssemos. E se a política é convidada ao debate, ela terá, necessariamente, que vir atrelada à religião, principalmente a cristã que, no caso da moralidade ocidental, foi e é extremamente basilar. Sendo assim é urgente lembrar do que nos disse o grande crítico literário Otto Maria Carpeaux,
"sem a firme resolução de assumir as responsabilidades e tirar as consequências políticas a atitude religiosa seria mera evasão."
Não quero aqui retratar Jesus como um mero evasionista, quando ressalto que o peso do que ele dizia tinha um objetivo bem mais celestial do que qualquer outro. Quero apenas trazer ao debate o que, quase à maneira de Thieme, nos lembra o historiador Geoffrey Blainey, que diz que, "embora houvesse um caráter de revolução social na mensagem de Jesus, seu chamado não tinha como objetivo a derrubada de líderes romanos e judeus". Agora, que eles ficaram irados com sua presença e pregação ficaram. E isso teve consequências as mais drásticas possíveis.
A tentativa de reduzir o pensamento cristão à ideologia acontece, frequentemente, com o auxílio de alguma teologia doente. Por exemplo, quando Eusébio de Cesaréia, na sua História Eclesiástica, criou sua "teologia imperial", concedendo ao imperador Constantino o título de representante de Deus na terra, de modo que as ações deste seriam justificadas teologicamente.
De semelhante modo, nasceu aqui na América Latina, nas décadas de 60 e 70, uma nova teologia, a já mencionada Teologia da Libertação, que busca tornar políticos, esvaziados de seu conteúdo espiritual, certos preceitos bíblicos, como se ideológicos fossem. Atribui-se ao teólogo peruano Gustavo Gutiérres a criação desta tal teologia, e, além de Frei Betto, temos, no Brasil, como representante desta teologia, o teólogo Leonardo Boff. Esta teologia materialista é um flagrante oxímoro. Ela mais aprisiona do que liberta de verdade, pois, como lembra Leandro Narloch:
"Se os cristãos lutavam para ir para o céu, os comunistas buscavam trazer o céu à terra."
A teologia da libertação tenta construir a imagem de Cristo de modo diferente do qual ela é revelada nas Sagradas Escrituras. Esta teologia não pode conter o real sopro, a real vontade, que guiava Jesus. Foi percebendo isto que McGrath ressaltou que "a ênfase evangélica sobre a autoridade de Jesus Cristo como ele é revelado nas Escrituras (em vez de como ele é arquitetado por grupos de interesse humano e blocos de poder) é profundamente libertador." E isso é que é libertação. Não a teologia dos srs. Betto, Gutiérres, Boff, etc. O ex-presidiário Luiz Inácio da Silva, o Lula, é um grande entusiasta desta teologia. Ela é, aliás, uma das responsáveis por seus desgovernos enquanto ocupou a presidência do Brasil. Mas até o recém apoiador de Lula, o Luiz Felipe Pondé, diz em seu Guia Politicamente Incorreto da Filosofia, que o socialismo e o comunismo possuem bases fortemente ateístas, e que é o ateísmo, e não o cristianismo, que serve melhor como hospedeiro destas ideologias revolucionárias. O comunismo é baseado num amor falso, porque anula a liberdade individual para amar. E como diria Drummond:
"Os que amam sem amor
Não terão o reino dos céus."
Diante de tudo isto, crer num Jesus revolucionário é crer numa mentira, num quadrado redondo. Inverter a realidade dos seus atos e a profundeza de Suas palavras. Que Deus nos guarde de loucuras deste tipo.