A arte me parece sempre um resgate de coisas prestes a serem esquecidas. Pintamos cidades quando moramos no campo, desenhamos paisagens quando moramos na cidade; escrevemos poemas quando imersos no falatório comum; compomos música quando há apenas ruídos ao nosso redor.
Nossa alma trabalha como se a Beleza fosse um barco quase a naufragar, como se o dia de amanhã fosse o dia da feiura total, do caos, quando a gravidade do limbo iria então aspirar todo o Ser no abismo do nada.
A saudade e a nostalgia possuem algo de artístico em si mesmas, pois simbolizam provisoriamente as impressões que sentimos em determinados intervalos de tempo.
Me preocupa que a educação do meu tempo seja uma educação que desvaloriza a memória, negando aos estudantes o aprendizado da memória, ou melhor, a educação da memória, ensinando que é "melhor aprender" do que decorar, como se o mero ato de decorar fosse um crime intelectual.
Acontece que não existe antagonismo entre aprender e decorar. Decorar a oração do Pai Nosso é não entendê-la, não aprendê-la? De modo nenhum. É o contrário, quem decora tem chances de compreender muito mais, pois têm em si mesmo o material completo do ato que executará. Memorizar ou decorar uma partitura é bom para um músico, e ainda assim ele estará entendendo a canção da mesma forma. E quem decora uma fórmula matemática vai conseguir lidar muito bem com a aritmética, já que a matemática é feita de resultados perfeitos.
O falso antagonismo entre aprendizagem e memorização pode trazer uma forte corrosão à alma artística de um povo, pois sem educação da memória, qual será a graça de comparar nossas memórias com as impressões artísticas de um Manuel Bandeira, de um Heitor Villa-Lobos ou de um Cícero Dias?
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