Uma das dicotomias que mais me incomodam em algumas falas das pessoas hoje em dia é a que acham existir entre teoria e prática. Me parece que esta separação é puramente lógica, ela mesma não sendo real, "prática", por assim dizer. Todos os atos, a meu ver, envolvem os dois caminhos necessariamente. Claro que nada disso é novo. A civilização ocidental sempre foi capaz de notar que são inseparáveis a contemplação e a ação: ora et labora, dizia São Bento, o patriarca da civilização.
O filósofo e jurista Miguel Reale não considerava nem um pouco fácil realizar, no âmbito da sua obra, a separação entre teoria e prática. Quando vi o dr. Miguel tendo esta dificuldade, achei muito estranho ouvir de pessoas conselhos práticos de que não se deve ser alguém puramente teórico ou puramente prático, como se as pessoas teóricas não tivessem nenhum histórico de ações, e como se as práticas nunca tivessem feito projetos. Mais ainda, como as pessoas tinham a solução para um problema que nem para o dr. Miguel havia solucionado?
Neste momento, eu consegui perceber a diferença entre a retórica popular e a atitude filosófica em cima de um problema. Acho que a visão popular sobre o assunto é bastante otimista. Acha que tem a solução. O filósofo sabe que não é bem assim... Digamos que o filósofo seja um pessimista. É mais ou menos a separação que fazemos, nós conservadores, entre o ideário revolucionário, que nasce de mentes como Karl Marx e pretende solucionar os problemas do mundo em sua totalidade, e o pensamento sobre a realidade problemática o qual desenvolveram conservadores como Edmund Burke.
Acho que uma das personalidades que mais demonstram a falsa dicotomia que ora denuncio foi Alexis de Tocqueville. Ele era um grande escritor, um grande homem de letras, mas era, ao mesmo tempo, um gênio da política prática. Ele disse que conviveu com políticos que sempre se preocupavam com a produção dos acontecimentos, mas nunca pensavam em descrevê-los e, também, com homens de letras, que escreviam a história sem se envolverem com os assuntos.
Talvez isto viesse a servir de demonstração do exato oposto: que existem teóricos e práticos. Mas não. Se observarmos a pessoa que realiza a confissão percebemos que só é possível reconhecer teóricos e práticos por sermos as duas coisas no exato momento em que percebemos, porque reconhecemos em nós mesmos as duas posturas representadas naqueles que observamos. E aqueles que observamos são também mentes que serão capazes de fazer a separação entre homens práticos e teóricos justamente por reconhecerem na própria autobiografia os muitos atos teóricos ou práticos.
Acontece também o seguinte. Alguns homens se tornaram conhecidos pelos seus atos teóricos e outros pelos seus atos práticos. Neste sentido compreendo saudável resolver uma narrativa rotulando alguém teórico ou alguém prático. Podem existir outras possibilidades, as quais no momento não me ocorrem.
Observamos o modo como o filósofo e escritor Olavo de Carvalho descreve seu método para dominar a prosa e percebemos que estudar um romance como objeto sem antes imergir nas várias obras universais, imitando seus autores e dominando ao menos um pouco da técnica, você acaba invertendo o aprendizado, você não domina a obra. É como se você sequer tivesse chegado às portas da compreensão artística em torno da obra. Eis o que torna nossos cursos de letras praticamente infrutíferos, porque estudar um texto não é jamais compreendê-lo e assimilá-lo. Só se aprende a técnica da escrita, ademais, imitado o passo a passo do modo como vemos os outros escritores agirem. E mais ainda: só entendemos uma história se nos reconhecemos nos personagens e, portanto, imitamos os personagens imaginativamente. Hamlet jamais será compreendido se o virmos apenas como um texto a analisar, como vi fazerem os estudantes de letras na minha faculdade.
Mas não percamos o foco: simplesmente não vejo fácil essa dicotomia entre teoria e prática. A acho problemática no momento como a aplicam algumas pessoas. Para mim é inadequada qualquer tentativa que faça um homem prático de humilhar um homem teórico só por ser teórico e vice-versa, se é que estes tipos existem. Duvido muito que exista um homem prático que não faça esquemas e planos mentais antes de agir, ainda que de maneira mais ou menos inconsciente e automática. De semelhante modo, duvido que o homens teóricos não pratiquem diariamente uma rotina onde suas teorias não tenham aplicabilidade prática e, portanto, acabem tomando os atalhos da prática automática.
Esse foi muito chique e rico. 😍 Continua escrevendo! Estou ansiosa por mais textos linkos. Deus te abençoe, príncipe.
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