terça-feira, 20 de abril de 2021

Teoria e prática

Uma das dicotomias que mais me incomodam em algumas falas das pessoas hoje em dia é a que acham existir entre teoria e prática. Me parece que esta separação é puramente lógica, ela mesma não sendo real, "prática", por assim dizer. Todos os atos, a meu ver, envolvem os dois caminhos necessariamente. Claro que nada disso é novo. A civilização ocidental sempre foi capaz de notar que são inseparáveis a contemplação e a ação: ora et labora, dizia São Bento, o patriarca da civilização.

O filósofo e jurista Miguel Reale não considerava nem um pouco fácil realizar, no âmbito da sua obra, a separação entre teoria e prática. Quando vi o dr. Miguel tendo esta dificuldade, achei muito estranho ouvir de pessoas conselhos práticos de que não se deve ser alguém puramente teórico ou puramente prático, como se as pessoas teóricas não tivessem nenhum histórico de ações, e como se as práticas nunca tivessem feito projetos. Mais ainda, como as pessoas tinham a solução para um problema que nem para o dr. Miguel havia solucionado?

Neste momento, eu consegui perceber a diferença entre a retórica popular e a atitude filosófica em cima de um problema. Acho que a visão popular sobre o assunto é bastante otimista. Acha que tem a solução. O filósofo sabe que não é bem assim... Digamos que o filósofo seja um pessimista. É mais ou menos a separação que fazemos, nós conservadores, entre o ideário revolucionário, que nasce de mentes como Karl Marx e pretende solucionar os problemas do mundo em sua totalidade, e o pensamento sobre a realidade problemática o qual desenvolveram conservadores como Edmund Burke.

Acho que uma das personalidades que mais demonstram a falsa dicotomia que ora denuncio foi Alexis de Tocqueville. Ele era um grande escritor, um grande homem de letras, mas era, ao mesmo tempo, um gênio da política prática. Ele disse que conviveu com políticos que sempre se preocupavam com a produção dos acontecimentos, mas nunca pensavam em descrevê-los e, também, com homens de letras, que escreviam a história sem se envolverem com os assuntos.

Talvez isto viesse a servir de demonstração do exato oposto: que existem teóricos e práticos. Mas não. Se observarmos a pessoa que realiza a confissão percebemos que só é possível reconhecer teóricos e práticos por sermos as duas coisas no exato momento em que percebemos, porque reconhecemos em nós mesmos as duas posturas representadas naqueles que observamos. E aqueles que observamos são também mentes que serão capazes de fazer a separação entre homens práticos e teóricos justamente por reconhecerem na própria autobiografia os muitos atos teóricos ou práticos.

Acontece também o seguinte. Alguns homens se tornaram conhecidos pelos seus atos teóricos e outros pelos seus atos práticos. Neste sentido compreendo saudável resolver uma narrativa rotulando alguém teórico ou alguém prático. Podem existir outras possibilidades, as quais no momento não me ocorrem.

Observamos o modo como o filósofo e escritor Olavo de Carvalho descreve seu método para dominar a prosa e percebemos que estudar um romance como objeto sem antes imergir nas várias obras universais, imitando seus autores e dominando ao menos um pouco da técnica, você acaba invertendo o aprendizado, você não domina a obra. É como se você sequer tivesse chegado às portas da compreensão artística em torno da obra. Eis o que torna nossos cursos de letras praticamente infrutíferos, porque estudar um texto não é jamais compreendê-lo e assimilá-lo. Só se aprende a técnica da escrita, ademais, imitado o passo a passo do modo como vemos os outros escritores agirem. E mais ainda: só entendemos uma história se nos reconhecemos nos personagens e, portanto, imitamos os personagens imaginativamente. Hamlet jamais será compreendido se o virmos apenas como um texto a analisar, como vi fazerem os estudantes de letras na minha faculdade.

Mas não percamos o foco: simplesmente não vejo fácil essa dicotomia entre teoria e prática. A acho problemática no momento como a aplicam algumas pessoas. Para mim é inadequada qualquer tentativa que faça um homem prático de humilhar um homem teórico só por ser teórico e vice-versa, se é que estes tipos existem. Duvido muito que exista um homem prático que não faça esquemas e planos mentais antes de agir, ainda que de maneira mais ou menos inconsciente e automática. De semelhante modo, duvido que o homens teóricos não pratiquem diariamente uma rotina onde suas teorias não tenham aplicabilidade prática e, portanto, acabem tomando os atalhos da prática automática.

sexta-feira, 16 de abril de 2021

A amizade do café

De repente comecei a sentir azia por causa do café. Coitado de mim sem a amizade deste companheiro que até poucos dias atrás alegrou minha existência.

O pior de tudo é que tenho a sensação de que o café também sente falta de mim todas as vezes que pego um biscoito. Acho que a amizade não mudará. Continuaremos os mesmos, eu e o café.

Em geral, as pessoas tratam os outros como tratei o café. "Te fez mal, corta." Infelizmente não somos inclusivos, perfeitos como Jesus. E nem queremos ser. Perdi a confiança em nós, pobres humanos. Devemos mesmo é amar e tolerar o máximo de pessoas que conseguirmos, mas sem esperar que nós mesmos conseguiremos. Sem nos cobrar tanto. A chance de fracasso é imensa.

Hoje a minha irmã me pediu para lembrar de que tenho companheiros. Talvez eu tenha feito isso com facilidade nos últimos doze anos, que são os anos onde vivi no seio da igreja cristã.

Contudo, mesmo achando a amizade um dos mais importantes dos amores, creio que acabei ficando refém da busca pela reciprocidade. E por um tempo vou esperando pra ver se alguém pensa como a minha irmã quer que eu pense. Vou dar lugar para ver se os companheiros virão para este sertão que eu tanto larguei na busca por eles.

Enquanto espero, enquanto aguardo a excelente presença dos amigos, vou lutando contra o café, escrevendo com minha pouca técnica alguns parágrafos, amando a Deus do jeito que posso, frequentando as páginas dos meus amigáveis volumes na estante. Sem tristeza,  sem remorso, só vivendo esta vida que para um dos momentos de poesia de Manuel Bandeira, não vale a pena e a dor de ser vivida.

Trago, entretanto, comigo a esperança de que esta vida pouco dada aos encontros e às oportunidades de estar com os companheiros, possa revelar um pouco de mim para as pessoas que conheci e amei, numa página de crônica, num grifo ou anotação em margem de livro, no meu singelo amor (se sincero Ele sabe) a Deus ou numa xícara de leite, chá ou qualquer outra bebida quente que não seja meu velho e preto café.

Ag0st0 de 2018

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Arte, Memória e Aprendizagem

A arte me parece sempre um resgate de coisas prestes a serem esquecidas. Pintamos cidades quando moramos no campo, desenhamos paisagens quando moramos na cidade; escrevemos poemas quando imersos no falatório comum; compomos música quando há apenas ruídos ao nosso redor.

Nossa alma trabalha como se a Beleza fosse um barco quase a naufragar, como se o dia de amanhã fosse o dia da feiura total, do caos, quando a gravidade do limbo iria então aspirar todo o Ser no abismo do nada.

A saudade e a nostalgia possuem algo de artístico em si mesmas, pois simbolizam provisoriamente as impressões que sentimos em determinados intervalos de tempo.

Me preocupa que a educação do meu tempo seja uma educação que desvaloriza a memória, negando aos estudantes o aprendizado da memória, ou melhor, a educação da memória, ensinando que é "melhor aprender" do que decorar, como se o mero ato de decorar fosse um crime intelectual.

Acontece que não existe antagonismo entre aprender e decorar. Decorar a oração do Pai Nosso é não entendê-la, não aprendê-la? De modo nenhum. É o contrário, quem decora tem chances de compreender muito mais, pois têm em si mesmo o material completo do ato que executará. Memorizar ou decorar uma partitura é bom para um músico, e ainda assim ele estará entendendo a canção da mesma forma. E quem decora uma fórmula matemática vai conseguir lidar muito bem com a aritmética, já que a matemática é feita de resultados perfeitos.

O falso antagonismo entre aprendizagem e memorização pode trazer uma forte corrosão à alma artística de um povo, pois sem educação da memória, qual será a graça de comparar nossas memórias com as impressões artísticas de um Manuel Bandeira, de um Heitor Villa-Lobos ou de um Cícero Dias?

segunda-feira, 12 de abril de 2021

Dante ultrapassado?

 Conversando sobre se um clássico como a Divina Comécia pode ajudar alguém a aprender italiano ouço que isso pode ser dificultado pelo fato de sua linguagem não ser atual. Sempre os atualismos cronocentristas...

A degradação da língua italiana na Itália não deve ser nem um pouco parecida com a da língua portuguesa no Brasil, e tenho a impressão de que se quer rebaixar o aprendizado das línguas desde o contato com a literatura dos países onde são faladas, o que não pode ser defensável de maneira nenhuma. Aprender português com amigos e familiares não é o mesmo que aprender lendo Machado de Assis e Manuel Bandeira, a não ser que sejam aqueles grandes oradores da língua ou cientistas da língua.

Lendo e absorvendo a grande literatura poderemos pensar a língua e nossos discursos com mais inteligência e fluência. Poderemos nos expressar numa escala que vá do simples ao complexo, do belo ao grotesco, do conciso ao profundo, como é próprio de grandes prosadores.

Depois, supor que ignorar a literatura italiana para priorizar o aprendizado em cursinhos básicos de expressões diárias, que era onde queria chegar meu interlocutor, é um grande empurrão para a preguiça, que nos garantirá um ingresso numa padaria, mas não o nosso ingresso numa universidade ou num emprego que exija alguma expressão.

A menos que o objetivo seja comprar, pedir, ou trabalhar com pães, o melhor é tornar o desafio do aprendizado das línguas um pouco menos prosaico e nada provinciano ou medíocre, segundo penso.

sábado, 10 de abril de 2021

Sobre a mãe de Jesus

Maria é o ser humano mais importante que já habitou este planeta, depois de Jesus. Neste sentido, não vejo porque devemos negar a ela o nome de rainha dos homens, senhora sobre os homens. Eu negaria tal título apenas se "senhora" quisesse significar que eu devo obedecer a Maria, ou achar que ela pode ter um papel na minha salvação em Cristo, meu único Senhor neste sentido. Mas para mim, "senhora" é apenas um sinal de respeito, o que Maria merece demais.

Não importa que a maioria dos evangélicos que criticam o tratamento católico a Maria acabe amando muito mais a Cristo-Deus e pouco falando sobre o Cristo-homem. Há certo nojinho da carne por parte de alguns. Há pessoas que acham um escândalo confessar que Cristo subiu ao céu em carne, mesmo que você mencione os ferimentos que Tomé tocou. Agora, se o anjo Gabriel disse que Maria era a abençoada, a bendita entre as mulheres, significa que Gabriel, que representa o céu, falava de todas as mulheres ou ao menos contemplava as mulheres falando das outras mulheres, e notava que o nome de Maria era um nome impecável para o plano divino.

Antes eu imaginava que o fato de Maria, no seu cântico, confessar a própria baixeza, era uma forma de negar qualquer atenção a ela em todos os âmbitos, mas a humildade deve agigantar as pessoas. Quando Jesus diz que nenhum homem é maior que João, o Batista, ele também diz que no céu, aquele que é o menor, é maior que João, acredito que falando de si mesmo. Se Jesus é rei Maria se torna menos que uma rainha automaticamente, a não ser no sentido de todo o cristão é feito rei e sacerdote.

Eu tinha dificuldade de chamar Maria de mãe, mas percebi que não fazia sentido não sentir que Cristo era nosso irmão e amigo. Eu já chamei a mãe de alguns amigos de mãe. Por que só com Maria seria inadequado? Claro que chamar Maria de mãe diante de alguns protestantes pode dar a impressão imediata de que aceitamos todo o dogma católico. Mas se pensarmos bem, no âmbito pessoal, chamar Maria de mãe nem fede e nem cheira em termos de comportamento cristão. Agora eu acho que Maria se sente triste porque pessoas acham ruim que outras a chamem de mãe. Maria chorou o desesperado choro de uma mãe sobre a fronte morta do Emanuel, Deus conosco que se fez carne para nos reconciliar consigo mesmo. Ela não aceitaria a briga cristã dos últimos séculos em torno do seu nome.

Dizer que a mera admiração a Maria como mãe, senhora da humanidade, amiga, irmã ou mesmo rainha, é idolatria, é de uma forçação de barra gritante, pois ninguém que ama Maria a tal ponto tentará torná-la divina apenas admirando, ainda que a chame de santíssima virgem. Se ser santo é ser "separado" do mal para realizar a vontade de Deus, eu não teria problemas em dizer que a mulher escolhida e separada pela mensagem divina de Gabriel, pode ser chamada de santíssima, pois ela foi santa e bendita entre todas as mulheres. É um grau de santidade imenso se pensarmos bem.

Me soa estranho pedir a nossa senhora que "cuide de mim". Jesus disse que orássemos ao Pai em Seu santo nome. Jesus é o canal pelo qual nossa mensagem chegará a Deus. Maria não pode fazer este papel. Mas também é errado dizer que Maria nada pode fazer agora, pois se ela estiver acordada agora, com Deus, ela pode estar ao menos pedindo a Deus que venha logo buscar a Sua igreja (Ap. 6), o que é de grande valia e importância, porque eu bem que estou querendo ir logo morar com os santos. Estou ansioso para que Deus me aceite. Estou ansioso para conhecer Maria e os outros santos.

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Jesus era esquerdista?

Li e ouvi que Jesus Cristo era esquerdista, isto é, que tinha um plano de mudança social do nível de uma ideologia revolucionária como o marxismo, o socialismo ou o comunismo, etc. Sempre ouço uma canção de amigo que anuncia o fim de uma tempestade. Tempestades incomodam. Principalmente as que se fazem em copo d'água. Mas como diz o Rei Élfico, Thranduil, em O Hobbit, "às vezes uma tempestade é apenas uma tempestade."

Sou contra fazer tempestades em copos d'água, mas chamar o Senhor de revolucionário é um pouco demais. E isto significa que o espírito revolucionário quer tomar para si o maior de todos os homens. Isso não pode ser feito e, se depender de mim, não será, pois segundo Mário Ferreira dos Santos, no sentido político, ideologia é o termo utilizado para indicar as idéias gerais de um programa social que se fundam ou pretendem fundar-se sobre os dados reais dos fatos, especialmente os econômicos. A qualquer leitor atento das biografias de Jesus isto bastaria para desfazer a narrativa do Jesus esquerdista, sendo o Reino de Jesus o reino de uma "Jerusalém que nunca mais será destruída", como profetizava Jeremias. E, como sabemos, uma Cidade puramente celestial. "Meu Reino não é deste mundo", dizia Jesus. Não havia em Jesus nenhum interesse nas mudanças que uma ideologia em geral propõe, muito embora seus atos e palavras tenham, necessariamente, consequências sociais drásticas. Se assim não fosse, o cristianismo seria uma religião da evasão, apenas, não uma religião que se preocupa com o acontecer histórico.

Diz também Mário Ferreira dos Santos, no seu Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais, que para o marxismo o termo ideologia significa todo sistema filosófico, religioso, ético, etc., considerado como espiritual, mas que na realidade é mera função de um processo ou estado puramente material, sobretudo econômico. Ao contrário de filosofia política, que é a reflexão em cima das idéias políticas, a ideologia é um conjunto de idéias fundadas em pressupostos abstratos que só possuem significado quando desembocadas na realidade material.

Ademais, segundo Otto Maria Carpeaux, "as ideologias sempre foram instrumentos de luta pelo poder." É verdade que o poder envolve a capacidade de fazer os outros te obedecerem, o que Cristo tinha demais. Mas a diferença é que o poder mudano obriga. O poder de Cristo convida. As ideologias, por sua vez, não dão sugestões. Tudo nelas vai dar em algo que se torne obrigatório a todo um corpo social, o que para Jesus seria loucura.  

Olavo de Carvalho, no seu O Futuro do Pensamento Brasileiro, diz que toda ideologia - partido ou movimento - é somente compreendida quando temos idéia do que nossas interpretações a respeito deles significam desde seu ponto de vista. Para ele, ao contrário da Filosofia, as ideologias transferem a responsabilidade de conhecer a verdade do indivíduo para a coletividade, divergindo apenas sobre qual seria a coletividade encarregada para tal. Diz, também, que uma grande diferença entre as filosofias políticas e as ideologias revolucionárias modernas reside no fato de que aquelas só admitiam revoluções para a restauração de direitos tradicionais usurpados, ao passo que as ideologias se assentam  na absurda premissa de que, por serem baseadas na hipótese de novos direitos, devem conferir aos seus porta-vozes o direito de matar para realizá-los.

Aí encontramos uma porção de coisas as quais não cabem no discurso de Jesus: Ele não tentava transferir a busca pela Verdade para uma coletividade. Para Jesus, o indivíduo é quem devia crer nEle, que era e que é a Verdade. Jesus também não pode ser um filósofo político, porque ele não quis revolução alguma no âmbito social para restauração de direitos tradicionais usurpados. Livros como o do Peter Kreeft, que tratam da "filosofia de Jesus", estão apenas tratando de uma figura de linguagem. E depois Jesus jamais defenderia a morte de quem quer que seja para que novos direitos fossem realizados.

Ora, nunca vemos no comportamento de Jesus um idealismo que se assemelhe ao das ideologias modernas. Jesus parece bem mais alguém que tenta resgatar valores antigos ao fazer uma releitura da lei à luz daquilo que é anterior a ela: o amor a Deus e ao próximo. Não é um resgate de direitos. Se a misericórdia fosse praticada, o mundo mudaria, afinal os homens deixariam de ser tão mesquinhos, mas Jesus não queria que pessoas fossem mortas para um projeto social em torno disso. Ele queria morrer para isso. E o templo que Jesus derrubou e reconstruiu em três dias foi um templo espiritual que, uma vez reerguido no alicerce que é o próprio Jesus (e também o próprio templo, aliás), jamais voltará a ser destruído.

E não estou só quando penso em Jesus como uma espécie de reacionário. Diz Karl Thieme:

"Jesus não foi entregue aos romanos porque falava do Reino dos Céus, mas porque condenava a revolução nacional dos messianistas."

Jesus foi o primeiro que praticou aquela boa desobediência civil contra um sistema que lhe era ostensivamente falho, pecaminoso, inadequado ao tipo de Reino ao qual Ele pertence e do qual é Rei e Fundador.

As grandes e maiores ideologias modernas são totalmente contrárias à Igreja e ao Cristianismo, pois são de forte base ateísta, como por exemplo o marxismo, o comunismo e o socialismo, nos lembra também o grande teólogo Alister McGrath, na sua Teologia Sistemática, Histórica e Filosófica.

Assim, o "socialismo cristão", presente na obra de panfletários marxistas como Frei Betto no seu livro Cristianismo e Marxismo, é algo impossível na prática, pois não se pode reduzir a filosofia cristã, claramente reacionária, claramente revitalizadora de valores antigos, às ideologias modernas que lhe são caras, pois seria uma contextualização do Evangelho ao condicionamento e à interpretação social dada à realidade pelas ideologias, e como insiste McGrath no seu Paixão Pela Verdade, "o Evangelho é primário; a contextualização, secundária e provisória." E eu continuaria: no caso do comunismo, impossível.

Diz C. Baxter Kruger que "o Éden nunca foi meta, mas começo", e a vontade de Jesus de renovar o homem, o universo e tudo o mais está longe de ser um projeto ideológico para um futuro radiante e materialista. É, no máximo, um reacionarismo espiritual. Jesus não queria que os homens idolatrassem à pobreza na tentativa de erradicá-la como o faz a teologia da libertação falsamente. Ele queria matar a fome espiritual, primeiro, pois, como ele disse, os pobres sempre estariam conosco, mas Ele logo seria tomado de nós. Jamais diria que Cristo quis que evitássemos dar esmola, o que Mateus 6 desmentira rapidinho, mas quero dizer que a desesperada contextualização do Evangelho que tenta unir o Cristianismo a ideologias como o comunismo é a tentativa de tornar meta cristã um paraíso na terra, o que jamais seria prudente à luz das ações e palavras do Mestre dos mestres.

Para o historiador Paul Johnson,

"o objetivo de Jesus não era mudar o mundo. [...]Não tomou medidas para mudar o status quo político."

Era um revolução no interior do homem, não no meio social, o que Jesus queria. De fato, seu Reino estava sendo construído para além do mundo. E como bem dizia H. Richard Niebuhr,

"as grandes revoluções cristãs não acontecem por meio da descoberta de algo desconhecido até então. Elas acontecem quando alguém aceita radicalmente algo que sempre esteve aí."

A revolução de Jesus é reconhecer a realidade, não transformar a realidade. Claro que a religião envolve o agir político. O apóstolo dizia que ainda estamos no mundo. Não podemos viver como se não estivéssemos. E se a política é convidada ao debate, ela terá, necessariamente, que vir atrelada à religião, principalmente a cristã que, no caso da moralidade ocidental, foi e é extremamente basilar. Sendo assim é urgente lembrar do que nos disse o grande crítico literário Otto Maria Carpeaux,

"sem a firme resolução de assumir as responsabilidades e tirar as consequências políticas a atitude religiosa seria mera evasão."

Não quero aqui retratar Jesus como um mero evasionista, quando ressalto que o peso do que ele dizia tinha um objetivo bem mais celestial do que qualquer outro. Quero apenas trazer ao debate o que, quase à maneira de Thieme, nos lembra o historiador Geoffrey Blainey, que diz que, "embora houvesse um caráter de revolução social na mensagem de Jesus, seu chamado não tinha como objetivo a derrubada de líderes romanos e judeus". Agora, que eles ficaram irados com sua presença e pregação ficaram. E isso teve consequências as mais drásticas possíveis.

A tentativa de reduzir o pensamento cristão à ideologia acontece, frequentemente, com o auxílio de alguma teologia doente. Por exemplo, quando Eusébio de Cesaréia, na sua História Eclesiástica, criou sua "teologia imperial", concedendo ao imperador Constantino o título de representante de Deus na terra, de modo que as ações deste seriam justificadas teologicamente.

De semelhante modo, nasceu aqui na América Latina, nas décadas de 60 e 70, uma nova teologia, a já mencionada Teologia da Libertação, que busca tornar políticos, esvaziados de seu conteúdo espiritual, certos preceitos bíblicos, como se ideológicos fossem. Atribui-se ao teólogo peruano Gustavo Gutiérres a criação desta tal teologia, e, além de Frei Betto, temos, no Brasil, como representante desta teologia, o teólogo Leonardo Boff. Esta teologia materialista é um flagrante oxímoro. Ela mais aprisiona do que liberta de verdade, pois, como lembra Leandro Narloch:

"Se os cristãos lutavam para ir para o céu, os comunistas buscavam trazer o céu à terra."

A teologia da libertação tenta construir a imagem de Cristo de modo diferente do qual ela é revelada nas Sagradas Escrituras. Esta teologia não pode conter o real sopro, a real vontade, que guiava Jesus. Foi percebendo isto que McGrath ressaltou que "a ênfase evangélica sobre a autoridade de Jesus Cristo como ele é revelado nas Escrituras (em vez de como ele é arquitetado por grupos de interesse humano e blocos de poder) é profundamente libertador." E isso é que é libertação. Não a teologia dos srs. Betto, Gutiérres, Boff, etc. O ex-presidiário Luiz Inácio da Silva, o Lula, é um grande entusiasta desta teologia. Ela é, aliás, uma das responsáveis por seus desgovernos enquanto ocupou a presidência do Brasil. Mas até o recém apoiador de Lula, o Luiz Felipe Pondé, diz em seu Guia Politicamente Incorreto da Filosofia, que o socialismo e o comunismo possuem bases fortemente ateístas, e que é o ateísmo, e não o cristianismo,  que serve melhor como hospedeiro destas ideologias revolucionárias. O comunismo é baseado num amor falso, porque anula a liberdade individual para amar. E como diria Drummond:

"Os que amam sem amor
Não terão o reino dos céus."

Diante de tudo isto, crer num Jesus revolucionário é crer numa mentira, num quadrado redondo. Inverter a realidade dos seus atos e a profundeza de Suas palavras. Que Deus nos guarde de loucuras deste tipo.

terça-feira, 6 de abril de 2021

Viagem 2018 (2)

Hoje eu atentei para as coisas que em geral se mostram excessivamente sólidas, em nossa vida. O excesso de solidez é justamente aquilo que, nas coisas, mais nos faz sentir um grande impacto, uma grande dor.

Quando meditamos num poema ou numa pintura, podemos ter uma espécie de arrebatamento. É o que, na arte, se conhece como sublimação.

Mas Deus é sempre o grande Criador. Faz alguns minutos que saímos de Londres. Este bicho de ferro consegue ser um pouco mais desconfortável que aquele em que saímos de Guarulhos e, apesar do cansaço, as belas montanhas me consolam. As montanhas sublimam o meu sofrimento.

As explicações de segurança dos comissários ingleses mostram que o povo inglês é mais prático. Eles explicam como proceder no caso de um acidente como se o avião pudesse mesmo cair, ao contrário das outras companhias, que fazem explicações por puro ritualismo, em especial as brasileiras.

Que cansaço! Saímos de uma visita direto para o aeroporto de Stansted, castigados pela temperatura de zero graus que enfrentamos no traslado das malas e não dormimos nenhum segundo pelas manias burocráticas que envolviam o check-in, a apresentação dos passaportes, a verificação das bagagens, etc. Até agora estou com inveja do cara que vi dormir no chão do aeroporto, usando como travesseiro uma mochila e como guarda costas de sua vida e pertences a confiança em Deus ou na boa educação dos transeuntes.

Puxo assunto com o rapaz ao lado, pois quero saber sobre o livro que ele está lendo. Era um economista. Ele me disse outras coisas num inglês bastante viril, mas meu sono me impossibilitou de receber toda a mensagem.

Como se ele estivesse interessado, mostro a ele meu Orthodoxy, de Chesterton. Para tristeza minha, ele não sabe quem é. Explico com poucas palavras, Sorrimos cordialmente um para o outro e voltamos às nossas bolhas de viagem solitária e silenciosa. Segundos ou horas depois acordo com o pescoço dolorido. O modo como o rapaz dorme me dá uma noção do porquê.

O que me acordou foi a leve manobra que o bicho de ferro fez. Meu pai acorda, também. Não acredito que eu e o rapaz dormimos com a janelinha aberta. Percebo que a claridade é o que faz meus olhos astigmáticos doerem e este mesmo desconforto foi o que me fez despertar.

O bicho manobra de novo. Consigo ver os Alpes. É muito gelo. Absorvo a sublimação daquela vista mais uma vez. Deus só pode ser um grande Artista. Sei que não é informação nova, mas a idéia se encarna naquele momento.

Seria emocionante estar na Suíça de novo. Rever os queridos amigos que fizemos há dois anos, contemplar as belezas de uma Genebra que já consigo vislumbrar. Genève, nos ensinaram os amigos. Mas não sei francês. Fico no "Genebra", mesmo.

***

O aeroporto de Genebra continuava lá, como em 2016, o que me animou. Sempre tive essa mania de me alegrar quando as coisas não somem e nem desaparecem rapidamente. Isso é bom para a memória, eu acho.

Um almoço delicioso nos esperava na casa de um amigo, mas tudo em que eu pensava era na cama. O caminho do aeroporto até lá foi muito claro. Genève estava muito luminosa. Na Inglaterra houve sol, mas bem menos. Um amigo contava várias histórias enquanto dirigia para nós, mas eu dormi, infelizmente. Dormi porque pensei que Churchill estava certo: o sucesso exige preservação de energia. O cochilo eu consegui, o sucesso é que parece estar atrasado.

Entre um cochilo e outro, vejo aquela cidade amiga, mas imensa, que me acolhera dois anos antes. Belíssima, ela me fez parecer um sonhador. Enquanto os meus pensamentos vagueiam em comparações entre os países em que pisei, pauso tudo e falo: "os topos das construções de Genebra são  mais mágicos."

Acho que pensei alto. Meu amigo que dirige é velhinho. Chicão. Brasileiro. Percebo que ele não se incomodou com meu pensamento expresso. Deve ter até achado certo conforto nele, imaginando que eu estivesse a comentar algo das suas corajosas narrativas emudecidas pelo meu sono.

Meu avô também era Chico, digo. Mas desta vez tenho certeza de que Chicão me olha como olha alguém que comenta algo fora de hora. Cochilo novamente.

Minutos depois o carro para e eu acordo. Percebo que a narrativa continua. Sinal vermelho. Que trânsito organizado. O melhor que já vi na minha vida. Eu queria morar em Genebra. Pena que não me aceitam. Ah, se eu pudesse falar com algum governante. Ah, se Deus ouvisse meu desejo e amolecesse os corações das autoridades. Mas sou um traidor. Pensei o mesmo na Inglaterra. Eu só queria um quarto perto de uma biblioteca e um emprego de bibliotecário. Será o suficiente. Eu devia ser mais ambicioso...

Acordo num estacionamento estranho, mas bonito. Pedrinhas atapetam o chão sob o carro. Plantas ao redor embelezam o ambiente.

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Nós, Naruto e Jesus

"Como pois interpretar
o que os heróis não contam?"
- Carlos Drummond de Andrade

Mais cedo ou mais tarde, todo cristão precisa confrontar sua cultura, o amálgama de influências, ideias, símbolos que o circundam. Ele precisa realmente se preocupar com isso, pois não deve "se conformar com o mundo" ou "ser amigo do mundo". Há coisas perigosas no mundo. Porém, creio que há algo que geralmente não levamos em consideração: embora o mundo seja influenciado a ir para o inferno por meio de diversos elementos culturais, a moral judaico-cristã está posta nesta salada há milênios, junto com elementos pagãos comuns à ela, o que quer dizer que há muito o que perceber na realidade cultural que possa ser aproveitado pela pessoa que serve a Jesus.

Um desses elementos que eu consumo de vez em quando em busca de inspiração são as ensolaradas histórias de herói, tão próximas aos contos de fadas, sobre os quais diz Otto Maria Carpeaux: "estão cheios de realidade, ao ponto de ser possível falar, a respeito deles, das coisas mais sérias desta vida". E diz mais, de maneira mais aprofundada:

"Os contos de fadas são contos da infância da humanidade. Se há neles a origem de alguns grandes símbolos literários da humanidade, explica-se a razão por que os livros que contêm esses símbolos descem muitas vezes, com o tempo, a livros para a infância. A infância está mais perto das origens, da situação original da humanidade."

Na internet muita coisa é acessível de modo mais "econômico", se é que me entende... Ali podemos ver O Hobbit, As Crônicas de Nárnia, Naruto Shippuuden, Batman e Mulher Maravilha. Só para exemplificar alguns produtos culturais que contêm heróis de que gosto. Agora, já que comecei falando sobre fé cristã, é claro que o mero gosto não deve ser o único âmbito que quero explorar nestes heróis. É necessário algo mais, pois o cristão não faz as coisas apenas por gosto. Ele precisa que nas coisas haja um vislumbre também da Verdade e da Bondade, não somente da Beleza.

Claro que para um cristão há a possibilidade de se conformar com o âmbito estético de algo, afinal, a Face de Cristo é Beleza. Como diria Platão, a Beleza é a forma da Verdade que, para o cristão, é Jesus. Eis como o cristão pode abrir a porta de todas as artes sem medo, ainda que a arte esteja em grande medida infectada de influências outras que não sejam aquelas do cristianismo. No entanto, não é errado se sujar um pouco em busca da face de Jesus, porque o próprio processo da busca pela Beleza irá nos limpar aos poucos da manchas negras da feiura. E é aqui que a maioria dos cristãos com quem conversei sobre o assunto parece estagnar: como uma arte suja pode limpar alguém já limpo?

Obviamente, se achamos que nossa vida está bem sem a arte temos o total direito de a ignorarmos. Mas há alguns entre nós que não se conformará com a farsa da própria perfeição e procurarão na arte formas de iluminar em si mesmos a melhor forma de si. Aprendi em C. S. Lewis que Deus nos convida para louvá-lo não porque Ele é egocêntrico, mas porque, louvando-O, desfrutamos dEle. Desfrutar é o verbo da arte. Elogiar uma música, um poema, um traço de anime, um filme, pode nos ajudar a desfrutar de um símbolo que está por trás da obra, um símbolo iluminador, um símbolo que clarificará algo sobre nós mesmos. Neste sentido a obra de arte é como um espelho. Através da cor amarela de um anime, posso descobrir os tons amarelados da minha alma; através de uma música engraçada, descobrir o que em mim é engraçado; através dos sons de uma obra incomparável como a Nona de Beethoven, posso descobrir a própria melodia que toca no interior do meu corpo.

Neste sentido, a função de autoconhecimento que a arte possui acaba transitando entre verdade, beleza e bondade e podemos quase concluir que as três são uma só, se separando apenas como conceito, mas facilmente misturadas na realidade interior em que vivemos e nos relacionamos. Se podemos nos autoconhecer através da arte, então, é claro que podemos nos amar. Pois só o que é conhecido ou ao mesmo contemplado com alguma paciência em busca de entendimento é que pode ser amado. Não posso dizer que amo alguém que não conheço, posso? E é aqui que Sócrates e Jesus dão as mãos: aquele diz "conheça-se" e este, "ame-se". Mas para amar é preciso conhecer. Jesus vai além: ao amar-nos, devemos amar o outro, pois não é possível amar alguém sem reconhecermos nele o conjunto de possibilidades humanas circunstantes a mim. E a arte tem esse condão de nos fazer amar personagens que não somos, mas que poderíamos ser. E mais: poderiam ser nossos vizinhos, nossos próximos.

Talvez seja esta a função mais nobre da arte: ela pode nos fazer conhecer mais do próximo no momento em que sentimos um gosto, um cheiro, uma cor, um som, uma imagem. Ao conhecer, reitero, posso também amar. Se posso amar, posso salvar, a mim e aos outros. É desta noção que nascem os heróis.

O filósofo Olavo de Carvalho, desenvolve, no seu curso online, a idéia (não sem a ajuda de Félix Ravaisson) de que o filósofo é uma espécie de herói. O filósofo é aquele que tenta preservar a integridade do ser. É aquele que se obriga à "contemplação amorosa da realidade". Só sendo dócil à realidade, eu posso defendê-la. E cada filosofia será, neste sentido, uma espécie não somente de busca da Verdade, mas de defesa da Verdade. Eis porque os filósofos estão sempre refutando a alguém ou a alguma situação em defesa do que lhe parece mais adequado. Aqueles que não são dóceis à realidade, viram alvos perfeitos do emburrecimento, da fraqueza e da maldade, trio que caracteriza tão bem os tipos totalitários que trouxeram à humanidade inumeráveis sofrimentos.

Como diz Ronald Robson,

"nas histórias de super-herói tende a preponderar um elemento solar[...]: o herói, quando defende a mocinha de um rufião num beco escuro, ou quando desvia um cometa que colidiria apocalipticamente com a Terra, ou quando se dispõe ao sacrifício pessoal para salvar a vida de um notório bandido, o faz porque esses atos são formas concretas de realizar o propósito mais alto de defender a realidade. Em cada vítima salva, o herói salva não só a vítima, não só a humanidade, mas a realidade como um todo."

Ora, se a obra de arte que cria um herói pode simbolizar esta defesa da realidade, pode inclusive salvar pessoas que se identificaram com os personagens e trazê-las para a frente do Herói Supremo da humanidade: Jesus Cristo. Ele é a Verdade em voz (verbo), em ato (sem Ele nada do que foi feito se fez) e em forma (Sua formosura atrai a todos para Si). Neste sentido, podemos claramente fazer inúmeros paralelos entre os famosos heróis da nossa cultura e a pessoa de nosso Senhor Jesus Cristo, usando a arte para salvar almas. Mas urge citar a ressalva de C. S. Lewis:

"A cultura tem um papel distinto a desempenhar no trazer certas almas para Cristo. Nem todas as almas - há um caminho mais curto, e mais seguro, que sempre foi seguido por milhares de naturezas afetivas simples que começam, onde esperamos que terminem, com devoção à pessoa de Cristo."

Deve ter sido pensando nisto que Lewis foi capaz de conceber suas crônicas de Nárnia, que podem ter trazido muitas almas para Cristo por décadas. É claro que ele diz que o caminho mais seguro é ir direto para a devoção a Cristo. Ela é que é imprescindível. Estou aqui tentando colocar o assunto pensando no caso das pessoas que não querem apenas o caminho mais fácil, o de chegar a Cristo da maneira mais simples e permanecer isolado do mundo cultural. Há pessoas que acharam a Cristo e ficaram tão felizes por encontrá-Lo, que precisam reinventar este encontro de diversas outras formas, usando a cultura, usando os heróis que mesmo a cultura popular tem nos proporcionado.

Confesso ser uma dessas pessoas. Estou convencido da verdade teológica de que sou amado por Jesus. De que fui encontrado e perdoado. Sei que esta graça me basta. Mas uso a arte, a cultura, para adornar e tornar mais vivo e novo o encontro daquele Caçador com a minha alma. Posso me sujar com influências outras, mas reitero: Cristo nos limpa. Ele tira o pecado do mundo. Como diz o poeta Jorge de Lima no poema que inaugurou esta série de textos:

"É um tirano o meu Mago: põe obstáculos para eu atravessar, pedras para eu tropeçar, cortinas de fogo para eu me queimar, carnes lascivas para eu me sujar.
 Depois me passa ungüentos para eu me salvar."

Poderíamos questionar: por que alguém correria o risco de se sujar para buscar algo que já encontrou? Bom, até a imagem que temos de Jesus, de Deus, das Escrituras é fruto da nossa cultura também. É possível que a imagem que temos de Jesus esteja imperfeita. Apenas isto basta para percebermos que olhar os símbolos de criações artísticas alheias pode nos ajudar a melhorar nossa visão de mundo e de Cristo. Pode nos tornar mais humanos. Pode nos salvar. Tudo depende, como sempre, do que faremos com os elementos culturais com os quais tivemos contato. Mas é você quem deve decidir qual traje usar e que papel representará no grande teatro da cultura: será um conformado ou um herói? Um entediado ou um aventureiro? Por experiência, não vejo problema em ser os dois...