quinta-feira, 1 de abril de 2021

Nós, Naruto e Jesus

"Como pois interpretar
o que os heróis não contam?"
- Carlos Drummond de Andrade

Mais cedo ou mais tarde, todo cristão precisa confrontar sua cultura, o amálgama de influências, ideias, símbolos que o circundam. Ele precisa realmente se preocupar com isso, pois não deve "se conformar com o mundo" ou "ser amigo do mundo". Há coisas perigosas no mundo. Porém, creio que há algo que geralmente não levamos em consideração: embora o mundo seja influenciado a ir para o inferno por meio de diversos elementos culturais, a moral judaico-cristã está posta nesta salada há milênios, junto com elementos pagãos comuns à ela, o que quer dizer que há muito o que perceber na realidade cultural que possa ser aproveitado pela pessoa que serve a Jesus.

Um desses elementos que eu consumo de vez em quando em busca de inspiração são as ensolaradas histórias de herói, tão próximas aos contos de fadas, sobre os quais diz Otto Maria Carpeaux: "estão cheios de realidade, ao ponto de ser possível falar, a respeito deles, das coisas mais sérias desta vida". E diz mais, de maneira mais aprofundada:

"Os contos de fadas são contos da infância da humanidade. Se há neles a origem de alguns grandes símbolos literários da humanidade, explica-se a razão por que os livros que contêm esses símbolos descem muitas vezes, com o tempo, a livros para a infância. A infância está mais perto das origens, da situação original da humanidade."

Na internet muita coisa é acessível de modo mais "econômico", se é que me entende... Ali podemos ver O Hobbit, As Crônicas de Nárnia, Naruto Shippuuden, Batman e Mulher Maravilha. Só para exemplificar alguns produtos culturais que contêm heróis de que gosto. Agora, já que comecei falando sobre fé cristã, é claro que o mero gosto não deve ser o único âmbito que quero explorar nestes heróis. É necessário algo mais, pois o cristão não faz as coisas apenas por gosto. Ele precisa que nas coisas haja um vislumbre também da Verdade e da Bondade, não somente da Beleza.

Claro que para um cristão há a possibilidade de se conformar com o âmbito estético de algo, afinal, a Face de Cristo é Beleza. Como diria Platão, a Beleza é a forma da Verdade que, para o cristão, é Jesus. Eis como o cristão pode abrir a porta de todas as artes sem medo, ainda que a arte esteja em grande medida infectada de influências outras que não sejam aquelas do cristianismo. No entanto, não é errado se sujar um pouco em busca da face de Jesus, porque o próprio processo da busca pela Beleza irá nos limpar aos poucos da manchas negras da feiura. E é aqui que a maioria dos cristãos com quem conversei sobre o assunto parece estagnar: como uma arte suja pode limpar alguém já limpo?

Obviamente, se achamos que nossa vida está bem sem a arte temos o total direito de a ignorarmos. Mas há alguns entre nós que não se conformará com a farsa da própria perfeição e procurarão na arte formas de iluminar em si mesmos a melhor forma de si. Aprendi em C. S. Lewis que Deus nos convida para louvá-lo não porque Ele é egocêntrico, mas porque, louvando-O, desfrutamos dEle. Desfrutar é o verbo da arte. Elogiar uma música, um poema, um traço de anime, um filme, pode nos ajudar a desfrutar de um símbolo que está por trás da obra, um símbolo iluminador, um símbolo que clarificará algo sobre nós mesmos. Neste sentido a obra de arte é como um espelho. Através da cor amarela de um anime, posso descobrir os tons amarelados da minha alma; através de uma música engraçada, descobrir o que em mim é engraçado; através dos sons de uma obra incomparável como a Nona de Beethoven, posso descobrir a própria melodia que toca no interior do meu corpo.

Neste sentido, a função de autoconhecimento que a arte possui acaba transitando entre verdade, beleza e bondade e podemos quase concluir que as três são uma só, se separando apenas como conceito, mas facilmente misturadas na realidade interior em que vivemos e nos relacionamos. Se podemos nos autoconhecer através da arte, então, é claro que podemos nos amar. Pois só o que é conhecido ou ao mesmo contemplado com alguma paciência em busca de entendimento é que pode ser amado. Não posso dizer que amo alguém que não conheço, posso? E é aqui que Sócrates e Jesus dão as mãos: aquele diz "conheça-se" e este, "ame-se". Mas para amar é preciso conhecer. Jesus vai além: ao amar-nos, devemos amar o outro, pois não é possível amar alguém sem reconhecermos nele o conjunto de possibilidades humanas circunstantes a mim. E a arte tem esse condão de nos fazer amar personagens que não somos, mas que poderíamos ser. E mais: poderiam ser nossos vizinhos, nossos próximos.

Talvez seja esta a função mais nobre da arte: ela pode nos fazer conhecer mais do próximo no momento em que sentimos um gosto, um cheiro, uma cor, um som, uma imagem. Ao conhecer, reitero, posso também amar. Se posso amar, posso salvar, a mim e aos outros. É desta noção que nascem os heróis.

O filósofo Olavo de Carvalho, desenvolve, no seu curso online, a idéia (não sem a ajuda de Félix Ravaisson) de que o filósofo é uma espécie de herói. O filósofo é aquele que tenta preservar a integridade do ser. É aquele que se obriga à "contemplação amorosa da realidade". Só sendo dócil à realidade, eu posso defendê-la. E cada filosofia será, neste sentido, uma espécie não somente de busca da Verdade, mas de defesa da Verdade. Eis porque os filósofos estão sempre refutando a alguém ou a alguma situação em defesa do que lhe parece mais adequado. Aqueles que não são dóceis à realidade, viram alvos perfeitos do emburrecimento, da fraqueza e da maldade, trio que caracteriza tão bem os tipos totalitários que trouxeram à humanidade inumeráveis sofrimentos.

Como diz Ronald Robson,

"nas histórias de super-herói tende a preponderar um elemento solar[...]: o herói, quando defende a mocinha de um rufião num beco escuro, ou quando desvia um cometa que colidiria apocalipticamente com a Terra, ou quando se dispõe ao sacrifício pessoal para salvar a vida de um notório bandido, o faz porque esses atos são formas concretas de realizar o propósito mais alto de defender a realidade. Em cada vítima salva, o herói salva não só a vítima, não só a humanidade, mas a realidade como um todo."

Ora, se a obra de arte que cria um herói pode simbolizar esta defesa da realidade, pode inclusive salvar pessoas que se identificaram com os personagens e trazê-las para a frente do Herói Supremo da humanidade: Jesus Cristo. Ele é a Verdade em voz (verbo), em ato (sem Ele nada do que foi feito se fez) e em forma (Sua formosura atrai a todos para Si). Neste sentido, podemos claramente fazer inúmeros paralelos entre os famosos heróis da nossa cultura e a pessoa de nosso Senhor Jesus Cristo, usando a arte para salvar almas. Mas urge citar a ressalva de C. S. Lewis:

"A cultura tem um papel distinto a desempenhar no trazer certas almas para Cristo. Nem todas as almas - há um caminho mais curto, e mais seguro, que sempre foi seguido por milhares de naturezas afetivas simples que começam, onde esperamos que terminem, com devoção à pessoa de Cristo."

Deve ter sido pensando nisto que Lewis foi capaz de conceber suas crônicas de Nárnia, que podem ter trazido muitas almas para Cristo por décadas. É claro que ele diz que o caminho mais seguro é ir direto para a devoção a Cristo. Ela é que é imprescindível. Estou aqui tentando colocar o assunto pensando no caso das pessoas que não querem apenas o caminho mais fácil, o de chegar a Cristo da maneira mais simples e permanecer isolado do mundo cultural. Há pessoas que acharam a Cristo e ficaram tão felizes por encontrá-Lo, que precisam reinventar este encontro de diversas outras formas, usando a cultura, usando os heróis que mesmo a cultura popular tem nos proporcionado.

Confesso ser uma dessas pessoas. Estou convencido da verdade teológica de que sou amado por Jesus. De que fui encontrado e perdoado. Sei que esta graça me basta. Mas uso a arte, a cultura, para adornar e tornar mais vivo e novo o encontro daquele Caçador com a minha alma. Posso me sujar com influências outras, mas reitero: Cristo nos limpa. Ele tira o pecado do mundo. Como diz o poeta Jorge de Lima no poema que inaugurou esta série de textos:

"É um tirano o meu Mago: põe obstáculos para eu atravessar, pedras para eu tropeçar, cortinas de fogo para eu me queimar, carnes lascivas para eu me sujar.
 Depois me passa ungüentos para eu me salvar."

Poderíamos questionar: por que alguém correria o risco de se sujar para buscar algo que já encontrou? Bom, até a imagem que temos de Jesus, de Deus, das Escrituras é fruto da nossa cultura também. É possível que a imagem que temos de Jesus esteja imperfeita. Apenas isto basta para percebermos que olhar os símbolos de criações artísticas alheias pode nos ajudar a melhorar nossa visão de mundo e de Cristo. Pode nos tornar mais humanos. Pode nos salvar. Tudo depende, como sempre, do que faremos com os elementos culturais com os quais tivemos contato. Mas é você quem deve decidir qual traje usar e que papel representará no grande teatro da cultura: será um conformado ou um herói? Um entediado ou um aventureiro? Por experiência, não vejo problema em ser os dois...

Um comentário:

  1. Meu Deus! Que maravilhoso! Me senti lendo Lewis. Sem mentira.😍 Glória a Deus! Quero mais.

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