terça-feira, 6 de abril de 2021

Viagem 2018 (2)

Hoje eu atentei para as coisas que em geral se mostram excessivamente sólidas, em nossa vida. O excesso de solidez é justamente aquilo que, nas coisas, mais nos faz sentir um grande impacto, uma grande dor.

Quando meditamos num poema ou numa pintura, podemos ter uma espécie de arrebatamento. É o que, na arte, se conhece como sublimação.

Mas Deus é sempre o grande Criador. Faz alguns minutos que saímos de Londres. Este bicho de ferro consegue ser um pouco mais desconfortável que aquele em que saímos de Guarulhos e, apesar do cansaço, as belas montanhas me consolam. As montanhas sublimam o meu sofrimento.

As explicações de segurança dos comissários ingleses mostram que o povo inglês é mais prático. Eles explicam como proceder no caso de um acidente como se o avião pudesse mesmo cair, ao contrário das outras companhias, que fazem explicações por puro ritualismo, em especial as brasileiras.

Que cansaço! Saímos de uma visita direto para o aeroporto de Stansted, castigados pela temperatura de zero graus que enfrentamos no traslado das malas e não dormimos nenhum segundo pelas manias burocráticas que envolviam o check-in, a apresentação dos passaportes, a verificação das bagagens, etc. Até agora estou com inveja do cara que vi dormir no chão do aeroporto, usando como travesseiro uma mochila e como guarda costas de sua vida e pertences a confiança em Deus ou na boa educação dos transeuntes.

Puxo assunto com o rapaz ao lado, pois quero saber sobre o livro que ele está lendo. Era um economista. Ele me disse outras coisas num inglês bastante viril, mas meu sono me impossibilitou de receber toda a mensagem.

Como se ele estivesse interessado, mostro a ele meu Orthodoxy, de Chesterton. Para tristeza minha, ele não sabe quem é. Explico com poucas palavras, Sorrimos cordialmente um para o outro e voltamos às nossas bolhas de viagem solitária e silenciosa. Segundos ou horas depois acordo com o pescoço dolorido. O modo como o rapaz dorme me dá uma noção do porquê.

O que me acordou foi a leve manobra que o bicho de ferro fez. Meu pai acorda, também. Não acredito que eu e o rapaz dormimos com a janelinha aberta. Percebo que a claridade é o que faz meus olhos astigmáticos doerem e este mesmo desconforto foi o que me fez despertar.

O bicho manobra de novo. Consigo ver os Alpes. É muito gelo. Absorvo a sublimação daquela vista mais uma vez. Deus só pode ser um grande Artista. Sei que não é informação nova, mas a idéia se encarna naquele momento.

Seria emocionante estar na Suíça de novo. Rever os queridos amigos que fizemos há dois anos, contemplar as belezas de uma Genebra que já consigo vislumbrar. Genève, nos ensinaram os amigos. Mas não sei francês. Fico no "Genebra", mesmo.

***

O aeroporto de Genebra continuava lá, como em 2016, o que me animou. Sempre tive essa mania de me alegrar quando as coisas não somem e nem desaparecem rapidamente. Isso é bom para a memória, eu acho.

Um almoço delicioso nos esperava na casa de um amigo, mas tudo em que eu pensava era na cama. O caminho do aeroporto até lá foi muito claro. Genève estava muito luminosa. Na Inglaterra houve sol, mas bem menos. Um amigo contava várias histórias enquanto dirigia para nós, mas eu dormi, infelizmente. Dormi porque pensei que Churchill estava certo: o sucesso exige preservação de energia. O cochilo eu consegui, o sucesso é que parece estar atrasado.

Entre um cochilo e outro, vejo aquela cidade amiga, mas imensa, que me acolhera dois anos antes. Belíssima, ela me fez parecer um sonhador. Enquanto os meus pensamentos vagueiam em comparações entre os países em que pisei, pauso tudo e falo: "os topos das construções de Genebra são  mais mágicos."

Acho que pensei alto. Meu amigo que dirige é velhinho. Chicão. Brasileiro. Percebo que ele não se incomodou com meu pensamento expresso. Deve ter até achado certo conforto nele, imaginando que eu estivesse a comentar algo das suas corajosas narrativas emudecidas pelo meu sono.

Meu avô também era Chico, digo. Mas desta vez tenho certeza de que Chicão me olha como olha alguém que comenta algo fora de hora. Cochilo novamente.

Minutos depois o carro para e eu acordo. Percebo que a narrativa continua. Sinal vermelho. Que trânsito organizado. O melhor que já vi na minha vida. Eu queria morar em Genebra. Pena que não me aceitam. Ah, se eu pudesse falar com algum governante. Ah, se Deus ouvisse meu desejo e amolecesse os corações das autoridades. Mas sou um traidor. Pensei o mesmo na Inglaterra. Eu só queria um quarto perto de uma biblioteca e um emprego de bibliotecário. Será o suficiente. Eu devia ser mais ambicioso...

Acordo num estacionamento estranho, mas bonito. Pedrinhas atapetam o chão sob o carro. Plantas ao redor embelezam o ambiente.

2 comentários:

  1. Eu me sinto viajando contigo. Dentro do teu pensamento. Que lindo!

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  2. Own. Deus abençoe. Tenho a melhor leitora. 😁 É coisa rara. Como diz Herberto Sales, escritores pululam no Brasil, mas leitores de verdade são poucos. E você é uma leitora! Gratíssimo pelas visitas e comentários, sua linda.

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